sexta-feira, 6 de novembro de 2009

QUE DOMINGO CHATO! - CÉLIA MUSILLI

Muito legal esta sintonia de afetos e sensibilidades via web. Leiam a belíssima crônica que a Célia Musilli escreveu inspirada nesta minha foto aí de cima:
QUE DOMINGO CHATO!

E começa aquele dia tedioso, com cara de missa das 10, quando chego a desejar que um ET apareça no meu quintal

Célia Musilli

Domingo passado reclamei de tédio no Twitter. É, como se não bastasse o Messenger, Orkut e Facebook, agora também aderi ao Twitter, o que só comprova o meu tédio via internet.
Está certo que cultivo alguns hábitos aos domingos dos quais não abro mão: feira em frente ao Cemitério São Pedro para ver de manhã, na banca de feijão, todas as variedades que minha mãe me ensinou a identificar: jalo, rosinha, carioca, bico-de-ouro, grãos reluzentes como a minha infância.
Pausa para comprar jornal, um pequeno atraso para adquirir flores mais em conta e verduras para a semana, não muitas, que é pra voltar à feira no próximo domingo quando, de manhã, Londrina parece uma cidade fantasma, com algumas avenidas quase vazias.
Também gosto de ir para a cozinha e, neste dia, faço macarronada para honrar o DNA, aí vem a leitura do jornal e uma ajeitada em tudo para que a casa não fique parecendo o Iraque no dia invasão.
Mas depois dos pequenos prazeres e de matar a fome quase insaciável das crianças, começa aquele domingo tedioso, com cara de missa das 10, quando chego a desejar que um ET desça no meu quintal, para ver se o dia ganha uma surpresa, um contorno inusitado, um acontecimento extra que me livre das outras ”atrações.”

Pudera, na TV o pior dia da semana é domingo. Só quem já pendurou as chuteiras, desistiu da vida ou decidiu pagar todos os seus pecados, pode querer ver a cara do Faustão na Rede Globo. Se mudar de canal, dentro do circuito normal, também não se encontra coisa melhor: Silvio Santos e seu sorriso congelado há 30 anos no SBT; na Band, uma programação de esporte sem fim - não estou nem aí pro Campeonato Brasileiro - e na Rede Record, vocês entendem, não dá para saber quem é pior: o bispo ou o Gugu? Páreo duro.

Como resolvi economizar eliminando a TV a cabo - ao mesmo tempo em que protesto pela repetição de filmes nos canais fechados – me dou por contente quando a TV Cultura entra sem querer lá em casa ou quando durmo ouvindo o apresentador do National Geographic falando dos hábitos “da foca-monge do Havaí.” Se os psiquiatras conhecessem o poder sonífero dos canais científicos, nunca mais receitariam remédios para dormir ou ansiolíticos para os (im) pacientes. Basta meia hora de programação sobre “as focas-monge do Havaí.”

Quando nada me agrada na televisão, vou à locadora descolar uns filmes. Mas como tenho um gosto diferente, não adianta procurar “Caos Calmo”, de Antonio Luigi Grimaldi. O jeito é me contentar com “Ele Não Está Tão a Fim de Você” e alguma coisa que sossegue as crianças por umas duas horas.

Então, restam os jornais, os livros, uma caminhada e a internet, onde estreei no Twitter com a seguinte mensagem: “Eita, domingo chato! Um ET bem que podia baixar aqui em casa.”

Na segunda-feira, recebi do fotógrafo Walter Ney uma resposta: “O meu também estava chato, mas saí para fotografar.” E me enviou uma bela imagem, entre outras da sua galeria. A foto é de uma festa domingueira, festa de bairro, mãe e filho no colo. No cenário, balões vermelhos para lembrar que a vida pode ser simples e ter um colorido extra.
Olhei a imagem e pensei que eu bem podia fotografar para escapar do Gugu aos domingos. Mas não tenho técnica, nem talento. Então, respondi ao Walter Ney: “Puxa, assim até a segunda-feira fica boa.” E senti vontade de passar um domingo numa festa de bairro, onde não há Twitter nem os ETs que às vezes aparecem aqui em casa, mas só na telinha, o que não tem muita graça.

http://www.sensivelldesafio.zip.net/
Crônica publicada no jornal Folha de Londrina - 01.11.2009

2 comentários:

!! MeNiNa dE aMaRaLiNa !! disse...

Poxa, que bacana... A Célia disse tudo... Tv de domingo, Londrina com cara de cidade fantasma e a possibilidade de nos ausentarmos das tecnologias para condicionar em nós a vivência necessária com os demais. Belo texto, bela foto! Bjs

walter ney disse...

É mesmo. A ausência necessária para viver o outro, às vezes aqui do lado da gente, na próxima viela. bjs